sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Confira a entrevista com o virtuoso pianista Glauco de Vita



Por Bruno Sawyer

Confira a entrevista que fiz com o bem humorado e virtuoso pianista Glauco de Vita. Além destes atributos, inteligência e personalidade forte são características marcantes do músico.

Leia a entrevista até o fim, pois há uma surpresa! (principalmente para os fãs de rock progressivo)


01) Conte-nos um pouco sobre seu trabalho.

Glauco: Qual deles, Bruno? (risos). Bom, musicalmente falando eu me classifico como um tanto “anárquico”, pois bebo de várias fontes sem me ater a informações (talvez seja um “erro”), mas respeito meu funcionamento... Já fiz trabalhos de jingles, peças com roupagem erudita, também New Age, bem como diversos tipos de arranjos e variações sobre temas já existentes e escrevo partituras quando solicitado.Também viabilizo composições de outros (sabe aqueles caras que têm “ótimas letras” e “ideias”? Então... Eu traduzo e faço arranjos para esse tipo de coisa).

Já toquei em casamentos e colações de grau; acompanhei e acompanho cantores em configuração de piano e voz (tanto lírico quanto popular). Bom... Tenho umas brincadeiras no Soundcloud e no You Tube.

02) Quando você começou a se interessar por música?

Glauco: Lembro-me de quando criança (uns 4 anos) de ter quebrado um pianinho de brinquedo da Hering (pianinho de cauda azul, com pernas brancas) porque o som era uma bosta; lembro-me também de que quando ia com meus pais a algum restaurante em que tocava alguma banda ao vivo, eu torcia o pescoço pra ficar olhando para o palco; mas de forma mais objetiva, comecei aos 11 anos indo direto para o piano (contrariando meu pai, que queria que eu tocasse violão), e após 3 anos segui no instrumento como autodidata (DE VERDADE, ESTUDANDO e não “enrolando” como muitos que se dizem “autodidatas”).

03) Quais instrumentos você toca?

Glauco: Meu instrumento é o piano, Bruno. Mas também aprendi sozinho violão, guitarra, flauta e também considero o canto como instrumento (embora neste eu ainda tenha muito a ser trabalhado).




04) Você gosta de rock?

Glauco: Pergunta tão sucinta quanto complexa, pois vejo o rock como uma “miríade de multiplicidades”; é como perguntar se você gosta de comida, por exemplo... Gosto de algumas coisas, detesto algumas e outras tanto faz. Mas aprecio sempre a qualidade dentro de cada estilo, embora eu não tenha propriamente uma “cultura rock”.

05) O que você acha da mistura de música clássica e rock?

Glauco: É nítida a quantidade de excelentes músicos com formação erudita que compõem o cenário do rock.

Um exemplo a ser citado (puxando a brasa pro meu instrumento) é Rick Wakeman, de formação, técnica e execução incontestavelmente incríveis, pois ele conseguiu fazer o que raríssimos coneguem: unir o sentimento à técnica apurada... Claro que fruto de muito estudo.

Um dado interessante acerca dele, que não sei se é de conhecimento de todos, assim como acontece com Hermeto Paschoal, ele chegou ao ponto de “tocar desenhos”, ou seja, em vez de uma partitura, havia desenhos de árvores ou de casas e a proposta era “toque esta árvore, ou toque esta casa”, fazendo com que os sentimentos fossem escarafunchados e a criatividade aflorada em plenitude de abstração.

Tenho um pouquinho de conhecimento "catalogado" em Música "Erudita", sobre a qual fui cada vez mais retrocedendo até começar a curtir Música Medieval.

Eu vejo muita coisa nova como simples mudança de roupagem. Calça continua sendo calça, vestido continua sendo vestido... Nada de essencialmente novo na praça. Os mais "inovadores" (tbm curto Kraftwerk - eles eram eruditos e conseguiram "atravessar a ponte" para a popularização da Eletrônica - e até hoje só reproduzem o que já faziam em 1973/74) estão hoje na praia do Jazz, ainda sendo musicais de alguma forma... Mas as pessoas não conseguem ouvir certos tipos de acordes ou estruturas rítmicas diferenciadas sem acharem que estão "errados"...  A tecnologia evoluiu muito, mas musicalmente não houve progresso, a despeito dos novos instrumentos e da propagação globalizada das múltiplas estéticas musicais... Classifico o "prog rock" como uma "colagem", mas as formas ainda são extremamente conservadoras.

Por exemplo, o Jethro Tull e o Zappa que são tão reverenciados por trazerem elementos eruditos ao rock, ou mesmo o Yngwie Malmsteen (Ego não entra em questão aqui, rsrsrs) vejo como simplesmente “mais do mesmo” ou até “menos do mesmo”, pois os originais superam em muito tanto no aspecto técnico, como na distribuição dos instrumentos e sutileza de nuances... As “novas gravações” viram caricatura na frente dos originais... (sorry, rockeiros, mas seria falta de honestidade intelectual da minha parte falar o contrário)

Sem pensar que hoje ocorre muito aquela modinha de literalmente “tacar uns caras de casaca tocando instrumentos de corda” como se fosse um super clássico (vide a porcaria que ficou o KISS).  Tal tendência foi iniciada com chave de ouro pelos idos dos anos 2000 com o show dos Scorpions com a Filarmônica de Berlim – que eu pessoalmente gostei muito, pois ao contrário dos supracitados, eles enriqueceram o trabalho próprio e não empobreceram o trabalho dos eruditos, sendo então uma forma de contramão. Talvez por isso tenha soado agradável para mim, embora, repetindo: NADA DE NOVO NA PRAÇA MUSICALMENTE FALANDO.


06) Fale um pouco sobre o ensaio que você escreveu.

Glauco: Bruno, por volta de 2007 escrevi um ensaio intitulado “A Vida é a Maior Onda”, em que eu descrevo meu “modelo de funcionamento do Universo”  tentando tirar componentes místicas e religiosas sobre a dinâmica da Vida... Como tive formação em Eletrônica e também estudo exaustivamente Psicologia e Espiritualidade, consegui de certa forma integrar essas vertentes e o que Jung chama de “sincronicidade” eu simplesmente chamo de “ressonância”, pois são fenômenos ondulatórios, que nada têm de milagrosos, pois esta propriedade faz com que os semelhantes não só se reúnam, como também se potencializem.

07) O que significa música para você?

Glauco: Música pra mim é a forma de trazer algo do inefável para a materialidade, pois ela integra elementos de ambas as esferas... É a expressão óbvia e universal de sentimentos e emoções – tanto é isso que acaba ocorrendo gostarmos de músicas cujas letras estão em idiomas que muitas vezes desconhecemos... Vejo a letra como pretexto.

Música é humanidade em plenitude, pois apenas nossa espécie consegue qualificar, gerir e produzir deliberadamente sobre as frequências audíveis (no caso da Música).  

08) Agora deixo o espaço para que você me pergunte o que quiser.


Glauco: Bruno, você tem uma capacidade invejável de catalogar, informar-se e organizar informação... E agora irá ao mesmo tempo disseminar e agregar com extrema qualidade e fluidez. E tudo isso aliado a muita sensibilidade e competência. Qual o segredo? Forte abraço! 

Bruno: Olha cara, não tem segredo nenhum e se tiver, eu não sei qual é (risos). Para a minha sorte (ou azar) a internet dispõe de bastante informação, basta ir atrás. Pesquisar em google, blogs, wikipedia e redes sociais faz parte do processo. O bacana das redes sociais é que você consegue ter o parecer de quem ouve. Então aprende a analisar mais aspectos da música, pois tem a ajuda dos comentários positivos e negativos pra isso.

Obviamente, os trabalhos que tiverem lançamentos físicos (a maioria esmagadora) merecem ser apreciados com olho na arte e ouvidos afiados. Além disso, conversar pessoalmente com é fã de um determinado trabalho faz toda a diferença.

Mais importante que isso tudo é o fato de gostar de música e, no meu caso, amar incondicionalmente o rock. Este sentimento é o motor inicial que me ajuda a correr atrás de qualquer informação de qualquer forma possível. E também me ajuda a transmitir estas informações da melhor forma possível.

Para conhecer mais do trabalho do Glauco, acesse os links abaixo:

www.youtube.com/glaucodevita


Para fechar com chave de ouro o músico gentilmente gravou um medley com canções de Rick Wakeman e Yes. 

Dê o play  e aproveite!



Dossiê do Rock: Revelando o Passado. Incentivando o Futuro.