segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Guy Corrêa: “Gosto de falar que sou da Pompéia, que é a terra do rock”



Por Bruno Sawyer





Como o título já diz, o músico paulistano tem orgulho de ser do mesmo bairro de grandes nomes do rock brasileiro, como Mutantes e Made In Brazil.

Além disso, Guy nos contou um pouco sobre sua carreira artística, pois, além da música, ele também é escritor.

Cheio de conteúdo e com um repertório vasto, ele gentilmente nos concedeu uma bela entrevista.

Confira abaixo:

01) Primeiramente, é um prazer entrevistá-lo. Conte para nós, quem é Guy Correa?

Guy: Nasci em São Paulo. Estudei Jornalismo e Ciências Sociais. Fui repórter durante muito tempo. Escrevi sobre turismo, aviação comercial e negócios, em revistas como Viagem e Turismo, Exame, entre outras. Publiquei livros. Sou autor de um romance e de dois livros de poemas. Morei em Lisboa e em Londres. Componho e canto. Uso o violão e a guitarra pontualmente nos shows. Utilizo os instrumentos mais para compor.

Gosto de falar que sou da Pompéia, que é a terra do rock. Uma vez solicitei uma entrevista ao Sergio Dias, dos Mutantes, e o abordei no email citando nosso bairro de origem. “Olha, esta é uma conversa entre garotos da Pompéia”. Ele topou na hora. Passamos uma tarde conversando em seu apartamento na Avenida Angélica. Pena que a Pompéia não preserve sua memória musical.

A casa onde moraram os irmãos Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Claudio Cesar Dias Baptista (inventor de instrumentos musicais) está em péssimo estado. Não há nenhuma sinalização de que bandas como Mutantes, Tutti Frutti, Patrulha do Espaço e Made in Brazil tenham surgido no bairro.

02) Como você começou no mundo música?

Guy: Informalmente comecei a tocar com alguns colegas de faculdade. Depois iniciei um trabalho mais consistente com um amigo que estudava comigo na PUC. Misturávamos rock e blues com músicas de fossa. Compúnhamos e fazíamos releituras de alguns clássicos, inclusive de outros gêneros musicais. Por exemplo, transformamos Cabelos brancos, de Herivelto Martins e Marino Pinto, num blues. As pessoas adoravam. Cantei essa música com essa pegada durante anos. Chegamos a gravar algumas demos, mas, em 1998, eu acabei indo trabalhar em Portugal, numa agência de marketing cultural.

Na volta ao Brasil retomei o trabalho sozinho e gravei meu primeiro disco, que leva o meu nome. Ele foi gravado em 2002, mas lançado apenas em 2004, após uma temporada que passei em Londres.




03)  Quais são suas principais influências?

Guy: Rolling Stones, Pink Floyd, Syd Barret, Patti Smith, Buddy Guy, Lou Reed, Tutti Frutti, Patrulha do Espaço, Walter Franco, Titãs e Barão Vermelho.

Digo sempre que também sou influenciado por livros e filmes que vi. Por exemplo, na música Welcome, primeira faixa do disco, seu último verso “Welcome to Istambul” é uma citação de um filme do cineasta português Manoel de Oliveira chamado Um filme falado, no qual há uma cena de um navio chegando ao litoral turco em meio a uma névoa. A câmera faz uma tomada na proa da embarcação. Não se vê nada. De repente surge um letreiro em terra firme onde se lê “Welcome to Istambul”. Esse é o desejo de quem está atravessando o Mar Mediterrâneo numa embarcação precária: ser bem recebido. Mas as tragédias não param de acontecer durante essas travessias.

A música Lugar qualquer surgiu logo depois que assisti ao filme Um lugar qualquer, de Sofia Coppola. Gostei mais do título do que do próprio filme, que aborda o vazio existencial de um ator americano. A minha música também fala sobre isso, mas ela vai mais fundo porque aborda a depressão.



04) Após um hiato de 10 anos, você está com o seu novo trabalho, o belo Desejos Furiosos. Como foi o processo de composição? Teve alguma canção que deu mais trabalho pra finalizar?

Guy: No início de 2011, lancei um desafio: queria dar uma reciclada no trabalho, fazer canções com temáticas mais incisivas e colocar mais peso nas guitarras. O EP Desejos Furiosos (disponibilizado em formato digital, com distribuição pela Tratore) traz quatro músicas de minha autoria.

Welcome, que tem uma pegada Pink Floyd, fala sobre alguns fluxos migratórios no mundo. Lugar qualquer é a balada do disco. Seu tema é a depressão. Coração de estrelas, um tipo de reggae que foi reprocessado na Inglaterra, narra as aflições de uma pessoa que está longe de sua família por causa do trabalho, no caso em São Paulo. E Avatar, a música mais pesada do trabalho, aborda o cotidiano de um usuário de crack. Atualmente estou fazendo shows com a minha banda para divulgar o EP. Em 2016, vou gravar o disco inteiro e levar o trabalho também para Portugal e outros países da Europa.

A música que demorei mais tempo para fazer foi Welcome. Foram três meses trabalhando nela diariamente. Os movimentos migratórios no mundo sempre me chamaram a atenção. Li bastante sobre esse assunto,  vi documentários e por ter morado duas vezes no exterior, ouvi e vivenciei muitas histórias, algumas muito tristes. Por exemplo, no Aeroporto de Heathrow, no início da década passada, os funcionários da imigração barravam pessoas que tentavam entrar na Inglaterra calçando sapatos muito bem engraxados. Faziam isso sadicamente e riam depois do expediente ao contarem a reação desesperada das pessoas impedidas de entrar no país.


Na Oxford Street, uma das principais vias comerciais em Londres, é muito comum se deparar com brasileiros segurando placas de anúncio na calçada. Muita gente atravessa o oceano para fazer esse tipo de trabalho. Quando estava lá, ficava pensando se alguns deles não teriam arrependimento por estar tão longe de casa fazendo isso.   



05) Foi legal trabalhar com o Marcos Ottaviano?

Guy: Foi espetacular desde o início. Lembro de nosso primeiro encontro, quando ele pediu para eu passar meu repertório no violão. Fui mostrando as músicas e ele ficou coçando a barba. Seu apelido “The teacher” tem tudo a ver com ele. O Ottaviano, além de ser um monstro com a guitarra é um baita produtor. Ele me sacou como compositor e me recolocou nos trilhos do rock e do blues, que é o meu melhor lugar.

Quando fomos para o estúdio me vi com um dream team do rock: Marcos Ottaviano, Lee Marcucci e Mario Fabre. O Lee é uma lenda viva, considerado o maior baixista do rock brasileiro. Mario Fabre, que hoje está nos Titãs, também toca muito. Ver os dois trabalhando com o Ottaviano foi um aprendizado. Este trabalho proporcionou o encontro no estúdio, até então inédito, de Marcos Ottavino com Lee Marcucci.

O Eduardo Lopes que é um profissional de vídeo e fotografia fez um registro das gravações. Um dos resultados dessas filmagens é o vídeo de Lugar Qualquer, que está em meu canal no Youtube.

Da esquerda para a direita: Mário Fabre, Guy Corrêa, Marcos Ottaviano, Amleto Barboni e Lee Marcucci


06) Como surgiu a oportunidade de traduzir “Ron Wood: A Autobiografia de um Rolling Stone”? Chegou a falar com ele para tirar dúvidas?

Guy: Sempre admirei demais o Ron Wood, tanto como músico quanto como pessoa. Nunca ouvi nenhum comentário negativo sobre ele, pelo contrário. Seu senso de humor é único. Mick Taylor tocava demais, mas nunca esteve de corpo e alma na banda. Ron Wood tem um entrosamento pessoal e musical com Keith Richards e ama o que faz.  Ele tem um trabalho solo interessante. O último chamado I Feel Like Playing  não foge à regra e tem várias participações especiais.

Sua trajetória na música é incrível. Ele já era um astro antes de ingressar nos Rolling Stones. The Faces é um tremendo capítulo na história do rock. Depois que os Beatles pararam, no Reino Unido no início dos anos 70, eles só perdiam em popularidade para os Rolling Stones. No entanto, mesmo com tanto currículo e talento, Ron Wood ainda é visto com desconfiança, aqui no Brasil. Durante anos, discuti com muita gente em mesas de bar defendendo Wood, que também é um pintor talentoso.

Quando saiu a biografia dele, fiquei esperando uma versão em português. Mas nenhuma editora se interessou pelo livro. Em 2012, fui chamado pela Editora Generale para escrever o prefácio de uma nova biografia do Pink Floyd (Nos bastidores do Pink Floyd, Mark Blake), que estava sendo lançada pela editora. Na época, comentei para eles que a biografia do Ron Wood ainda não havia sido lançada no Brasil. Surpresos, eles negociaram os direitos e me convidaram para traduzir e prefaciar o livro, que é a biografia mais divertida do rock. Infelizmente ainda não tive a oportunidade de conhecê-lo. Talvez isso ocorra na próxima vez que os Stones passarem pelo Brasil.

07) Deixe um recado para os fãs.

Guy: Não deixem de prestigiar o rock brasileiro. No Brasil, o gênero saiu da grande mídia. Mas tem muita gente fazendo rock de qualidade. Quem curte rock nunca envelhece.  E como diz Arnaldo Baptista em sua música LSD, “Louvado seja Deus que nos deu o rock’n’roll’.  

08) Agora é a sua vez. Pode me perguntar o que quiser.

Guy: Bruno, não vou lhe perguntar nada. Quero te parabenizar pela iniciativa de manter o blog. O rock precisa muito de caras como você. Obrigado pela oportunidade. Grande abraço.

Bruno: Quem agradece sou pela atenção e profissionalismo e desejo-lhe bastante sucesso por este caminho tortuoso que é trabalhar com rock na nossa terra brasilis.

Veja mais sobre o trabalho de Guy nos links abaixo:



Dossiê do Rock: Revelando o passado. Incentivando o futuro.